A língua portuguesa mudou. Para melhor?

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Embora parentes bem próximas, irmãs quase univitelinas, a língua portuguesa e a língua espanhola estão em estágios diferentes. O espanhol é uma língua mais bem resolvida em vários aspectos, e conseguiu incorporar marcas de oralidade interessantes, o que seguramente faz com que a língua tenha mais atratividade. Caso típico é a autorização que os falantes do espanhol têm de começar frases com pronomes oblíquos. Eles dizem “me gusta”, “te quiero”, sem remorsos. No caso do português, a razão para a proibição é formal, normativa, e já poderia ter caído em desuso. Mas é para promover essas reformas que existe a Academia Brasileira de Letras, embora não seja uma entidade reguladora oficial. As novas regras foram tornadas obrigatórias no Brasil, desde 1º de janeiro de 2016 (mais de quarenta anos depois da nossa última reforma ortográfica, realizada em 1971). São pequenas modificações, que não atingem sequer 2% dos mais de 230.000 verbetes constantes do Houaiss, o mais recente dicionário brasileiro.

O Acordo Ortográfico, negociado desde 1990 entre oito países lusófonos, não é unanimidade. Em Portugal, por exemplo, tenho vários amigos escritores que se recusam a adotá-lo em seus livros e outros escritos. Mas creio que as alterações terão o condão de simplificar a língua. O que, em si, já um ganho significativo. A seguir, comentários sobre algumas dessas modificações.

Para começar, acaba o trema. Não vai ser mais preciso escrever “cinqüenta”, mas cinquenta. A explicação é que o trema é mais uma referência fonética do que propriamente de escritura.

Também na direção da simplificação, foram eliminados alguns casos de uso do hífen para composição de prefixos. O hífen desaparece quando o segundo elemento simples começa com s ou r, devendo a consoante ser duplicada (contrarregra, ultrassom). A exceção nesse caso é quando o prefixo termina em r (hiper-, inter- e super-). Também desaparece o hífen quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com vogal diferente: aeroespacial, autoestrada.

Lembram-se dos chamados acentos diferenciais, mantidos pela reforma de 1971? Também somem. Não se usará mais o acento em pára, do verbo parar, que o diferenciava da preposição para. Não se usará mais o acento em péla, do verbo pelar, que o diferenciava da preposição pela. Pólo, substantivo, também perde o acento. Pêlo (cabelo) e pélo (do verbo pelar) também não precisarão de acentos para se diferenciarem de pelo (preposição + artigo). Pêra, a fruta, também não terá mais acento.

Outra “limpeza” da língua portuguesa é o desaparecimento do acento circunflexo nas formas verbais (terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo) de crer, dar, ler, ver. A grafia passa a ser assim: creem, deem, leem e veem. Com base no mesmo raciocínio, desaparece o acento circunflexo em palavras terminadas no hiato oo, como enjôo ou vôo: agora devem ser escritos enjoo e voo.

Quanto ao acento agudo, também some em alguns casos. Por exemplo, nos ditongos abertos ei e oi de palavras paroxítonas (vamos passar a escrever assembleia, ideia, heroica, jiboia). Também nas palavras paroxítonas, em que haja ditongo seguido de i ou u tônico, desaparece o acento (feiura, baiuca). E, finalmente, desaparece o acento agudo em formas verbais como averigúe (averigue), apazigúe (apazigue) e argúem (arguem).

A nova reforma também resgata as letras k, w e y, e o alfabeto volta a ter 26 letras. Aliás, nem deviam ter sido eliminadas, porque são necessárias para o aprendizado de outras línguas, como o inglês, e de siglas internacionais.

Aí estão algumas das modificações que a gramática descritiva indica para tornar a língua portuguesa mais econômica, mas simples e, portanto, mais dinâmica. São mudanças no caminho da modernidade.